domingo, 7 de fevereiro de 2016

Governo introduz medidas para o controlo da exploração das madeiras

Em 2004 John Barne escreveu o primeiro relatório que denunciava a exploração ilegal de madeiras em Moçambique, mas foi em 2006 quando o relatório Chinese Takeaway despertou muita atenção sobre a situação da exploração ilegal de madeiras em Moçambique. Desde lá até hoje, vários testemunhos apareceram dando provas dos desmandos que estavam a acontecer no sector de florestas. De facto a situação foi se agravando com o tempo. O Silvicultor publicou vários posts sobre o assunto, incluindo estudos feitos por investigadores nacionais e estrangeiros, reportagens de jornais nacionais, depoimentos de pessoas ligadas ao sector de florestas, entre outros.
Apesar do governo nessa altura haver tomado medidas tais como reclassificação de espécies, estabelecimento de taxas de sobrevalorização, banimento parcial de exportação de toros, entre outras medidas, pouco efeito resultou. Os últimos relatórios (de 2014, 2015) indicavam perdas de receitas na ordem dos 12 a 15 milhões de dólares (quase metade da receita esperada) e indicavam também que o nível actual de exploração (>700 mil m3) já havia passado a capacidade de corte anual (estimada em 500-600 mil m3). Estas duas constatações são importantes indicadores de perdas económicas e ambientais.
Mais ainda, apesar do regulamento de florestas haver estabelecido o regime de concessões florestais como forma superior de gestão sustentada de florestas naturais, a exploração em regime de licença simples foi a que mais se notabilizou e acelerou a exportação de madeira em toros em vez do processamento local de madeiras.
A perda de receita, a fraca fiscalização e a pressão da exploração ilegal propiciaram condições para estatísticas pouco fiáveis da exploração e exportação de madeiras. Com efeito, pelas estatísticas oficiais, o corte de madeiras está muito abaixo da capacidade de corte anual, sendo que, com base nas estatísticas oficiais, não se justificava a tomada de medidas mais severas.
O reconhecimento destas situações (perda de receita, estatísticas pouco fiáveis, exploração acima do capacidade de corte anual) constituíram uma base importante para que as medidas ora tomadas fossem de facto introduzidas. Adicionado a este reconhecimento, o sector de florestas tem estado a testemunhar uma evolução rápida a seguir as tendências globais sobre (i) economia verde ou de baixo carbono, (ii) redução de emissões do desmatamento e degradação florestal, e (iii) valorização de florestas em pé.
Assim, as medidas ora tomadas têm em vista enfrentar esta situação e assegurar que as florestas possam contribuir para o desenvolvimento rural através de geração de empregos e provimento de bens e serviços de utilidade pública, ao mesmo tempo que contribui para a economia nacional, tendo em vista os limites e capacidades de reprodução das florestas. O resumo sobre as medidas tomadas, classificadas em imediatas e de médio-longo prazo, encontra-se a seguir, e mais detalhes podem ser encontrados no texto oficial anunciando as medidas.

      Medidas imediatas
  •  Monitoria e avaliação dos operadores – com vista a verificar e avaliar a situação actual das operações florestais nas florestas naturais. Com esta medida pode se obter informação mais fiável e segura sobre o estado das explorações florestais. A inclusão da sociedade civil e da academia neste processo poderá dar um maior dinamismo e imparcialidade na avaliação.
  • Veda do corte da madeira de pau-ferro (Swartzia madagascariensis) – depois de se observar que madeiras desta espécie já se encontram esgotadas, estando-se a cortar árvores de tamanho abaixo do diâmetro mínimo recomendado. A medida visa dar tempo de regeneração e permitir a avaliação do estado de conservação da espécie.
  • Suspensão de emissão de novas licenças e concessões florestais – para dar tempo para reorganizar o sector, incluindo o estabelecimento de um sistema de informação florestal que possa servir de base para apoiar a tomada de decisões sobre a gestão das florestas.
  • Suspensão da exportação de madeira em toros – esta medida vem a agravar as medidas de banimento parcial de exportação de madeira em toros de espécies de primeira classe. Esta medida tem em vista promover o processamento local de madeiras, adição de valor agregado e geração de empregos rurais.


Medidas a médio-longo prazo
  • Uma nova política e estratégia de florestas – com vista a acomodar os assuntos emergentes no sector e reorientar para a conservação. A política actual está mais orientada para a exploração de madeiras muito mais do que valorizar as florestas em pé, assim, uma nova política poderá enfatizar a conservação e a valorização de outros bens e serviços florestais para além da madeira.
  • Uma nova lei e regulamento de florestas – com vista a operacionalizar a nova política e a estratégia de florestas. Estes instrumentos têm em vista reduzir o extractivismo e encontrar formas de valorizar as florestas em pé, ao mesmo tempo que dá maior intervenção às pessoas que vivem dentro ou perto das florestas, segundo os princípios de maneio florestal sustentável.
  • Projecto Floresta em pé – esta medida tem em vista valorizar as florestas em pé, ao mesmo tempo que se estabelece um mecanismo para que as florestas contribuam cada vez mais para a sociedade através de produção de mobiliário para escolas e hospitais bem como o plantio de árvores e restauração de áreas degradadas, produção sustentada de carvão vegetal, entre outros.


Para concluir:

Para o sector efectivamente fazer valer estas medidas, precisa trabalhar arduamente para que no fim de dois anos o sector esteja em outros patamares. A suspensão de emissão de licenças e concessões florestais por dois anos deve ser seguida de medidas de estabelecimento de um sistema operacional de informação florestal para dar estatísticas claras e transparentes em tempo real; precisa que se criem oportunidade para capacitação de operadores modelo, que possam servir de ponto de partida para a divulgação de boas práticas florestais; e um sistema de fiscalização eficiente e capaz de apoiar o reforço da implementação das normas vigentes.
O banimento da exportação de madeira em toros pode afectar muitos operadores florestais. Entretanto, nos últimos tempos o mercado Chinês reduziu a importação de madeiras de Moçambique, sendo que esta medida poderá agravar ainda mais a situação dos operadores que dependem exclusivamente deste mercado. Por outro lado, há muita madeira que já foi cortada e encontra-se nos parques de toros e espera exportação, que deve agora ser processada antes de deteriorar.
Para minimizar os impactos, uma série de medidas deverão ser tomadas com vista a enquadrar os que ficam afectados, mas que têm vontade de continuar no sector de florestas. Uma das medidas importantes é o investimento em equipamento e infraestrutura que permita o processamento local. Entretanto, não basta colocar máquinas de serração e processamento secundário, vai ser preciso formar e capacitar operadores dessas máquinas, técnicos de manutenção, bem como na identificação e desenho de produtos florestais que possam ser colocados tanto no mercado nacional assim como internacional.
O projecto floresta em pé parece ser um desses que procura tapar essa lacuna, e por isso deve ser tomado a sério e com efeitos imediatos. O não enquadramento dos operadores ou a falta de orientação sobre as boas práticas poderá frustrar as razões desta iniciativa de valorizar cada vez mais as florestas naturais.
Em 2011 foram tomadas medidas, que na altura pareciam ter muito potencial de produzir resultados. O Silvicultor criou muita expectativa sobre as medidas, mas não parece haver acontecido nada do esperado. Podemos evitar que isso volte a acontecer se forem tomadas de facto, medidas de acompanhamento das decisões tomadas.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Qual é a definição de "floresta" para Moçambique?

No âmbito da preparação do REDD+ em Moçambique, foi iniciada uma discussão para definir o termo “floresta”. Inicialmente parecia um assunto muito simples, que não merecia sequer um debate. Toda a gente sabe o que é floresta. Vários documentos têm essa definição. O dicionário tem uma definição do termo. A Lei de Florestas e Fauna Bravia tem uma definição política. O texto básico de ecologia tem uma definição ecológica. O inventário florestal tem uma definição técnica de âmbito florestal. O certo é que todas essas definições são diferentes uma da outra e o resultado é que quando estamos no campo e encontramos uma área com árvores nem sempre sabemos se estamos diante de uma floresta ou de qualquer outra formação vegetal. Ao mesmo tempo, quando um especialista de GIS observa uma imagem de satélite de uma região arborizada, não é sempre fácil saber se a área é florestal ou não. As diferentes definições podem gerar discussões imensas, pois olham para o conceito de um determinado ponto de vista. O debate sobre mudança na definição de florestas é antigo e existem alguns comentários que podem ser vistos.
Os motivos para a mudança de definição são vários e nem sempre encontram consensos. Para além da definição, será preciso pensar qual é o objectivo e como será utilizada a definição: Proteger, manejar ou converter as florestas? Cada um destes objectivos pode ter implicações diferentes. Agora que a onda é o REDD+, o ponto de vista é conservação, é produção florestal, é eficiência na utilização da área florestal, entre outros aspectos de interesse global e local. É neste ponto de vista que proponho discutir o tema neste post. Os pontos aqui colocados não são conclusivos, mas procuram colocar na mesa várias questões que há que considerar.
Em Fevereiro de 2015 estive num seminário onde o consultor contratado para preparar a definição de floresta trouxe a proposta de modificar a definição da FAO (aquela utilizada para o inventário florestal em Moçambique) para o seguinte: “Uma área de pelo menos 1 hectare, com árvores de altura pelo menos 3 metros, e uma cobertura de copas de 30%”. A diferença com a definição usada no inventário florestal é que aquela usa um limiar de 10% de cobertura de copas. Os outros dois termos não têm merecido tanto debate, mas o nível de cobertura de copas é o mais discutido.
O principal aspecto desta definição é o seu posicionamento para modificar a definição que foi utilizada para preparar os mapas e as estatísticas de áreas florestais que hoje conhecemos em Moçambique. Foi assim que à primeira vista, fiquei chocado com tal posicionamento. Acredito que a sensação de imaginar que eu ficarei sem saber as estatísticas e a localização geográfica das florestas em Moçambique colocou me em pânico. Pensei logo: “isso significa que teremos que fazer um novo inventário florestal? Que precisamos fazer outro mapa florestal? Que a área de floresta já não será 50%, mas uma área bem menor? Que a taxa de desmatamento não será mais a mesma? Oh Jesus! Teremos que repensar tudo o que já dávamos como assunto fechado e de domínio público. Todos os argumentos para o REDD+ foram nessa base; será que essa base não será derrocada com esta maneira de pensar diferente sobre o conceito de floresta?” Fiquei de facto transtornado só por pensar nas mudanças que essa nova definição poderia trazer.
Entretanto pensando bem, procurei ver que o que mais pode significar esta nova definição, e nesse contexto observei o seguinte:
1.       Mudar a definição de florestas pode representar o ponto de partida para as mudanças que acreditamos que são necessárias para a implementação do REDD+. Tem-se dito sempre que o REDD+ implica mudanças, e as mudanças podem ser chocantes. A mudança na definição de “floresta” pode ser apenas a primeira de várias mudanças que são necessárias.
2.       Mudar a definição de 10 para 30% o nível de cobertura de copas vai reduzir a área florestal de Moçambique consideravelmente. Particularmente, grande parte da região Sul deixaria de ter “florestas”. A maioria das “florestas” estaria confinada em áreas de difícil acesso e sem infraestrutura, enquanto a maioria das áreas de baixa cobertura, especialmente as áreas recuperadas do pousio da agricultura e áreas de florestas degradadas encontram-se nas proximidades dos povoados, onde há concentração populacional.
3.       A classificação de 10% de cobertura de copas, resulta numa área muito grande de cobertura florestal, e numa taxa relativamente baixa de desmatamento. A visão conservacionista e protecionista do REDD+, de evitar o desmatamento e manter stocks de carbono, pode criar dificuldades para o desenvolvimento de outras actividades de uso de terra, particularmente agricultura. Vale aqui recordar que a área cultivada em Moçambique é de apenas pouco mais de 6 milhões de hectares, o que é considerado muito pouco, especialmente para o tipo de agricultura extensiva que praticamos. A competição pela terra por outros usos poderá trazer outro tipo de constrangimentos ao desenvolvimento e complicar ainda mais o próprio processo de conservação das florestas.
4.       Moçambique é um país caracterizado como tendo muita terra disponível e com potencial (36 milhões de ha para agricultura e 7 milhões para plantações florestais). Esses números são sempre referidos para atrair investimentos estrangeiros. Entretanto, quando o investidor vem e se entrega a terra e este começa a trabalhar, logo vem a crítica de que este está a desbravar florestas ou para plantar soja ou para colocar plantações. Quando, por outro lado é alocado em áreas onde foi desbravado há muito tempo (onde se localizam as machambas dos camponeses) logo vem a crítica de usurpação de terras.
5.       A classificação de 10% de cobertura de copas resulta numa área muito grande de florestas, e para assegurar a conservação dessa área será necessário um corpo de fiscalização e recursos que os Serviços Florestais não dispõe, resultando num risco cada vez maior de desmatamento.
6.       Florestas com cobertura de copas abaixo de 30% de copas têm um stock de carbono relativamente baixo. Para rentabilizar projectos de carbono nesse tipo de florestas serão necessárias extensas áreas de terra. A gestão de extensas áreas de terra pode trazer maiores desafios do que concentrar esforços naquelas áreas com maior stock de carbono e mais rentáveis em termos de valor de carbono por unidade de área.
7.       Mudar a definição de 10 para 30% de cobertura vai aumentar a superfície de terra disponível para outras actividades de desenvolvimento, particularmente as plantações florestais. Do ponto de vista de stock de carbono, as plantações florestais, quando devidamente manejadas, podem manter um stock maior comparados a florestas nativas de baixa densidade.
8.       Apesar da baixa biodiversidade nas plantações florestais, o seu stock de carbono pode compensar. Mais ainda, converter áreas de baixa cobertura para plantações florestais pode ajudar a proteger as florestas naturais, através da produção de diversos produtos florestais que actualmente são extraídos de florestas naturais ão manejadas.
9.       A protecção de ecossistemas de alto valor biológico não deve ser visto apenas do ponto de vista de florestas. A biodiversidade existe em todos os ecossistemas, independente da sua cobertura florestal. Os Parques Nacionais e Reservas Especiais em Moçambique estão em diferentes ecossistemas, incluindo habitats marinhos savanas, pradarias, e outros.
10.   Produtos florestais podem ser obtidos em áreas com diferentes formas de uso de terra, contribuindo de maneira significativa para a economia. O conceito de “trees outside forests” é bastante conhecido nesse contexto e exsistem no mundo vários programas de incentivo para o plantio e conservação de árvores fora de florestas com importância ecológica, económica, social e cultural.
11.   A falta de um mapa de uso de terra, que indica as “áreas de cobertura florestal permanente” do país, é vista aqui como uma limitante, pois, nessa situação, colocamo-nos numa posição de tentar proteger todas as florestas que o país tem. Mas esse objectivo pode ser não apenas ambicioso, mas também contraditório com os objectivos de desenvolvimento de outros sectores.

Por fim, acredito que se abriu o debate sobre a definição de florestas para podermos colocar opiniões sobre o assunto. Esta foi a minha análise. Mudar a definição de floresta de 10 para 30% pode ajudar o sector a se concentrar na promoção de boas práticas de maneio florestal sustentado sobre as poucas florestas naturais que serão assim definidas, e ao mesmo tempo criar incentivos para o estabelecimento de plantações florestais.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

FLAME: uma ferramenta de apoio ao monitorização florestal testada em Moçambique

O projecto REDD Fast Logging Assessment & Monitoring Environment (REDD-FLAME) desenhou um sistema capaz de monitorizar as florestas tropicais e sub-tropicais usando imagens radar (e óptico) de alta resolução adquiridas por satélites de Observação da Terra. O sistema fornece meios para rapidamente identificar os primeiros sinais do desmatamento focalizando a detecção antecipada de actividades de exploração florestal, e agir assim como uma ferramenta para controlar o uso dos recursos e promover o desenvolvimento sustentável nestes ambientes frágeis e valiosos. O sistema constitui um aditivo aos sistemas existentes de alta-resolução e os sistemas (semi-) operacionais de média-resolução, fornecendo o enfoque para monitoria de áreas com alto risco de desmatamento. Como tal, o sistema pode ser integrado nos centros nacionais ou regionais de monitorização florestal e fornecer dados para avaliações em grande escala da emissão do carbono no contexto do REDD.
O sistema foi desenvolvido e testado em Moçambique,  Brasil e Indonésia, para cobrir uma variedade de tipos florestais e causas de desmatamento. Em Moçambique, o sítio de prova foi a Reserva Florestal de Mecuburi, na província de Nampula. O período de execução do estudo foi 2011-2013. O estudo foi coordenado pela empresa Remote Sensing Applications Consultants Ltd do Reino Unido, com a participação da SarVision, da Universidade de Wageningen da Holanda,  e da Universidade Eduardo Mondlane em Moçambique.


 

Clareiras visíveis nas imagens ópticas de muito alta resolução (RapidEye) na Reserva Florestal de Mecuburi. Mudanças na cobertura de Julho de 2010 (à esquerda) a Junho de 2012 (à direita)

O seminário final realizado em Fevereiro de 2013 em Maputo,  apresentou a avaliação do sistema, indicando que este tem uma capacidade real de identificar de forma rápida a remoção de árvores dentro da floresta através da detecção de alterações na cobertura de copas. A avaliação das alterações na cobertura de copas em períodos inferiores a um ano podem ser complicadas devido às variações estacionais com a caducidade foliar e a ocorrência de queimadas. A aplicação do sistema para a monitoria do REDD poderá ser influenciada pelo custo das imagens de alta resolução. Pois estas imagens deverão ser adquiridas com frequência, bem como a capacidade de resposta do sistema, uma vez detectadas as alterações na cobertura florestal. As recomendações, são assim de que o sistema possas ser utilizado com eficiência em áreas com maior risco de desmatamento, mas que se pretenda de facto reduzir ao máximo o desmatamento (p.e. nas áreas de conservação).
Para ver detalhes de resultados da avaliação na Indonésia e Brasil siga este link.
  

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Alternativas de energia e maior eficiência energética para salvar florestas

O desmatamento, a degradação do ambiente, a perda de diversidade biológica, entre outros aspectos, são temas bastante debatidos nas últimas décadas no mundo. Em Moçambique, o desmatamento e a degradação das florestas é atribuido a causas directas tais como conversão deflorestas para agricultura, a produção de energia de biomassa, entre outros. Estimativas gerais indicam a cifra de 80% como sendo a percentagem da energia doméstica que é gerada de lenha e carvão. A nível local as preocupações são outras: o fumo na cozinha, o custo elevado do carvão (o saco de cerca de 65 kg de carvão nas cidades de Maputo e Matola custa actualmente 750 meticais, valor que é superior ao preço de uma botija de 15 kg de gás, que é actualmente vendida ao preço de 610 meticais).
Há algumas iniciativas locais para minimizar os problemas referidos acima.

Utilização de gás natural: Produzido em Pande e Temane, província de Inhambane, o gás natural será canalizado para a cidade de Maputo e Marracuene. Numa primeira fase, a decorrer de 2012 a 2013, o projecto da parceria entre a Empresa Nacional de Hidrocarboneto (ENH) e uma companhia coreana, a KOGAS, irá abrangir os grandes consumidores e numa fase posterior irá atingir os consumidores domésticos (ver mais detalhes). Actualmente o gás natural já é consumido ao nível doméstico nos distritos de Vilanculos, Inhassoro e Govuro, província de Inhambane. Porém o número de consumidores ainda é pequeno: em 2011 era de 250 e havia planos de expandir para 350 no ano seguinte.
Utilização do gas natural para cozinha


Utilização de etanol: A fábrica de etanol a partir de mandioca, com capacidade para produzir 5 mil litros por dia, está instalada no Dondo, a CleanStar. Em Abril de 2013 fez-se a entrega dos primeiros 40000 litros de etanol para o mercado de Maputo. O produto é vendido com o seu fogão (fabricado na África do Sul), desenhado para o efeito e subsidiado para o consumidor Moçambicano.
Ndzilo
Ndzilo, a nova forma de cozinhar: 5 litros de etanol produzido pela CleanStar, Moçambique

Aumento da eficiência de utilização de carvão vegetal através da utilização de fogões melhorados: Lançada a iniciativa em Maio de 2013 pela Mozambique Carbon Initiatives, a meta é produzir e promover 13000 fogões melhorados de tipo mbaula e poupa carvão (e outros) com uma eficiência de pelo menos 20%.
Uso de fogões melhorados a carvão para aumentar a eficiência de uso

Em todos os casos há o desafio da adopção pelos potenciais consumidores. Falar em termos de aumento global de temperatura, perda de biodiversidade, redução de emissões de dióxido de carbono para os potenciais consumidores não parece fazer sentido nem despertar interesse em aderir à iniciativa. Impacto na economia doméstica (através da redução dos custos de energia), a qualidade do ar (menos fumo na cozinha) parecem ser questões mais apelativas para o processo de adopção.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Testando REDD em Moçambique

O REDD está tomar forma a nível global e Moçambique está nesse mesmo processo. Resutados dos experimentos e simulações feitas em outras regiões tropicais podem ser relevantes para Moçambique, que está presentemente a desenvolver acções prepativas para a implementação do REDD+. Enquanto os recursos são escassos e por isso não podemos justificar experimentos de todo o tipo para responder às perguntas do REDD+ , há experimentos em curso que contribuem para um melhor conhecimento da dinâmica do carbono florestal e as suas relações com o ambiente sócio-económico nacional e localO IIED em parceria com a Universidade Eduardo Mondlane (FAEF and FLCS-CAP), o Centro de Desenvolvimento Sustentável – Recursos Naturais, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique, a MICAIA e ORAM e Universidade de Edinburgo  estão a iniciar um projecto denominado "Testando REDD" com o financiamento do governo Norueguês. O projecto, com a duração de três anos, tem como objectivos "...definição da linha de base das condições socioeconómicas prevalecentes antes do início da implementação do REDD+ de modo que sirva para analisar as mudanças que esta iniciativa irá trazer. Igualmente importante é a ligação entre as actuais causas do desmatamento e degradação bem como a taxa de mudança de uso da terra e perda de estoques de carbono para determinação da linha de referência das emissões que também servira de base para medir os impactos do projecto e da implementação do REDD+ na zona centro".

Novas evidências de exploração ilegal de madeiras em Moçambique

A Agência de Investigação Ambiental (EIA) do Reino Unido, baseada em Londres, publicou em Dezembro de 2012 um relatório com novas evidências de exploração ilegal de madeiras em Moçambique. O relatório, intitulado First Class Connections: log smuggling, illegal logging and corruption in Mozambique foi bastante circulado entre os profissionais e praticantes do sector florestal e sociedade civil. Também foi matéria de manchete de vários jornais locais e promoveu acesos debates televisivos. O assunto foi até ao parlamento, pois uma das revelações do relatório é a ligação entre o Ministro da Agricultura (órgão central de gestão de florestas em Moçambique) com as empresas indiciadas de envolvimento em operações ilegais de madeira na província de Cabo Delgado.
Com este relatório, acumulam-se cada vez mais evidências de exploração ilegal em Moçambique. Depois dos relatórios e denúncias feitas e documentadas desde 2006 (ver o meu post sobre exploração ilegal ou a homenagem a António Patrício), utilizando métodos diferentes, parece que é cada vez mais inegável admitir que a exploração ilegal, e com envolvimento de empresas Chinesas é uma coisa mais real. A publicação do Forest governance in Zambézia, Mozambique: Chinese take away em 2006 provocou muito alvoroço, ao ser o primeiro relatório a escrever de forma aberta alguns achados da exploração ilegal de madeiras em Moçambique. Outros relatórios pouco circulados, por exemplo o relatório de comércio de madeiras entre África e China produzido pela Forest Trends, e o relatório de investigação do CIFOR sobre as relações Sino-Moçambicanas e as suas implicações sobre as florestas, foram produzidos indicando evidências de exploração ilegal de madeiras e uma cada vez crescente exportação de toros, apesar do seu banimento parcial. Apesar de ser difícil indicar claramente o envolvimento de pessoas do governo, do exército, políticos e funcionários do Estado, todos os relatórios sobre o assunto indicam que a exploração ilegal de madeiras tem facilitação de Moçambicanos.
As instituições responsáveis pela gestão dos recursos florestais, apesar de se redobrarem em medidas administrativas e jurídicas para controlar o assunto, parecem incapazes de trazer soluções concretas. A distância entre o discurso e a prática é cada vez maior. O relatório da EIA indica perdas na ordem de dezenas de milhões de dólares por ano em impostos e taxas. Se este valor fosse efectivamente colectado para o Estado e fosse aplicado para apoiar a gestão das florestas, os serviços florestais poderiam melhorar o seu desempenho. O envolvimento de pessoas individuais, Moçambicanas, na exploração ilegal de madeiras pode revelar como as pessoas estão tirando benefícios em detrimento das instituições. Não há estimativas de quanta madeira ainda existe na floresta, e os técnicos do sector não querem falar abertamente sobre o assunto. Entretanto não parece difícil imaginar que, a ser verdade a diferença entre as estatísticas dos Serviços Florestais de Moçambique e as estatísticas do mercado de madeiras Moçambicanas na China, não há sustentabilidade da exploração florestal em Moçambique.

Florestas tropicais são resilientes às mudanças climáticas

As florestas tropicais constituem um dos repositórios mais importantes de carbono dos ecossistemas terrestres. É com esta base que as Nações Unidas, através do REDD+ , têm estado a promover a iniciativa de redução do desmatamento e degradação de florestas como forma de assegurar a emissão de dióxido de carbono, um dos principais gases de efeito de estufa, para a atmosfera.
As bases do REDD+ supõem que as florestas, quando conservadas por um período de tempo longo, poderão armazenar CO2. Entretanto, as florestas tropicais estão expostas aos efeitos das mudanças climáticas, particularmente o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e o associado aumento de temperatura. O efeito destas mudanças sobre as florestas tropicais não é devidamente conhecido. Experimentos reais para medir estes efeitos são extremamente caros e os modelos de simulação têm sido a ferramenta utilizada para o efeito. Os resultados de modelos nos inícios da década de 2000 previam uma morte massiva de árvores nas florestas tropicais. Mais ainda, a seca que afectou a Amazonia em 2005 mostrou que perante este tipo de eventos as florestas podiam ser uma fonte de emissão e não um sumidouro de CO2. Modelos de simulação mais recentes dão conta que as florestas tropicais da África, América e Ásia, poderão resistir aos efeitos de aumento de concentração de CO2 e da temperatura. Se de facto as florestas tropicais forem resilientes às mudanças climáticas, então há boas notícias para a iniciativa REDD+, pois significa que a sua conservação não será perigada pelas próprias mudanças climáticas, para as quais o REDD+ pretende mitigar.
Ainda assim, investigadores de florestas tropicais, particularmente da floresta Amazónica reconhecem que não há dados suficientes para se saber o verdadeiro efeito do aumento da concentração de CO2 sobre as florestas tropicais. Para suprir esta falta de dados, os investigadores estão projectando montar o primeiro experimento em tamanho real para responder a perguntas tais como "como é que a floresta vai reagir se aumentarmos a concentração de CO2 ?". O experimento, a ser instalado em Manaus, Brasil, vai custar milhões de dólares e vai durar pelo menos 10 anos (ver artigo sobre o experimento publicado no jornal Nature).