O presente post teve a colaboração do Eng Sá Nogueira
O planeta terra é
aquilo que é porque tem vegetação, que desempenha um papel importante nas
trocas gasosas e na manutenção dos níveis de oxigénio e dióxido de carbono
aceitáveis para a vida humana e de outros seres vivos. Não é tanto sobre a
vegetação que este artigo pretende falar, mas uma parte dela, as árvores no
ambiente urbano. Diversos estudos (FAO, 2016; Reid et al., 2018) apontam que as árvores nas zonas urbanas ajudam não apenas na
ornamentação e estética, mas também no controlo do microclima (reduzindo as
flutuações de temperatura, particularmente no verão), reduzindo a velocidade
dos ventos, provendo habitat para biodiversidade, principalmente pássaros e
insectos, e servindo de base para a produção de frutos e flores e outros
serviços de utilidade pública. A rápida expansão urbana leva a problemas como
diminuição da cobertura de árvores, aumento de superfícies impermeáveis, altas
concentrações de dióxido de carbono atmosférico, efeito de ilha de calor urbano
e vedação do solo. As pessoas que vivem em áreas urbanas e peri-urbanas,
portanto, enfrentam muitos riscos potenciais à sua saúde, bem-estar e meios de
subsistência (FAO, 2016).
No contexto Africano,
o cenário é similar, com cidades de crescimento rápido, incapazes de produzir
bens e serviços para a população, agravando assim, os níveis de pobreza urbana.
É neste contexto que Conigliaro, Borelli, & Salbitano (2014) sugerem que o estabelecimento e maneio de árvores na zona urbana e
periurbana podem constituir um importante contributo para o desenvolvimento
sustentável das cidades Africanas. Ainda assim, aqueles autores reconhecem que
ter uma cidade arborizada requer um planeamento à medida. A FAO (FAO, 2016) estima que a arborização urbana tem o potencial de criar postos de
emprego decente, contribuindo dessa forma para a redução da pobreza urbana.
Para além de ver o plantio e manutenção de árvores urbanas como um encargo, o
mesmo estudo refere que observações feitas em várias cidades do mundo, demonstraram
que para cada dólar investido na manutenção das árvores urbanas, há um retorno
de 1.37-3.09 USD por ano.
Em Moçambique, a
Estratégia Nacional de Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação
Florestal (Governo de Moçambique, 2016) inclui entre as acções estratégicas de restauração de florestas, a
planificação urbana que inclua espaços verdes em forma de parques, árvores nos
arruamentos, e nos espaços domiciliários. Esta acção deve contar com a
participação activa dos Municípios. O Município de Boane, na província de
Maputo, por exemplo, lançou em 2017, um projecto denominado “Boane, Município
Verde”, com a finalidade de plantar um milhão de árvores num período de cinco
anos ([1]).
O uso de árvores em
áreas urbanas não apenas tem função estética e económica, mas também ambiental.
As árvores são usadas para controlar a erosão dos solos e prover sombra para os
citadinos. A Barreira de Maxaquene na Cidade de Maputo, por exemplo, é uma
região com elevada inclinação, e a estabilização dos solos é feita
principalmente através de vegetação estabelecida como instrumento de protecção
de taludes. Este serviço ambiental é considerado mais eficaz e mais económico
quando comparado com obras de engenharia civil com a construção de muros e
gabiões. Porém, requere medidas estritas de protecção para evitar a sua
destruição. As árvores do mangal têm funções ambientais mais específicas, incluindo
a filtração das impurezas dos resíduos urbanos, a protecção contra as marés de
ondas gigantes e tsunamis.
A silvicultura
urbana tem estado a ganhar cada vez mais interesse entre os estudiosos,
incluindo botânicos, geógrafos, silvicultores, poetas e, arquitectos. O plantio
de árvores nos passeios, jardins e parques e, quintais é uma prática comum em
Moçambique. As cidades Moçambicanas seguem tipicamente uma estrutura colonial em
que se faz a derruba da vegetação original e depois de construídas as ruas,
avenidas e edifícios, plantam-se árvores ornamentais. É assim que Maputo foi
conhecida no passado como a cidade das acácias, pela predominância das acácias
amarelas (Cassia siamea) e acácias
rubras (Delonix regia), esta última é
a flor símbolo do município da cidade de Maputo. Um estudo levado a cabo em
1986 por pesquisadores da UEM e da UFPr (Roderjan et al., 1986) identificou 25 espécies de árvores e palmeiras (entre nativas e
exóticas) nos principais arruamentos da Cidade de Maputo. Uma tese de
licenciatura de um estudante de engenharia florestal (Américo Cantelo 1994),
revelou haver mais de 100 espécies de árvores no Jardim Tunduro na baixa da
Cidade de Maputo. O Departamento de Engenharia Florestal da FAEF (Lisboa et al.,
2019) realizou censo arbóreo no Campus da UEM tendo reportado um total de 5478
árvores de 140 espécies pertencentes a 34 famílias.
A região periférica
da cidade de Maputo, principalmente nos bairros suburbanos, difere a prática,
sendo que nesta zona as árvores predominantes são plantadas nos quintais e
consistem principalmente de árvores fruteiras nativas e exóticas (e.g.
mangueiras, cajueiros, mafurreiras, coqueiros, etc.) utilizadas como sombra,
mas também como fonte de alimento. A importância e o significado das árvores
nas zonas urbanas é tal que deu origem a nomes de bairros, tal como o bairro de
Xipamanine (pequena figueira) na Cidade de Maputo e muito provavelmente o
bairro da Manga na Cidade da Beira.
Desde o Protocolo
de Kyoto, em 1997, as árvores têm ganho cada vez mais importância no contexto
das mudanças climáticas a nível global. O principal enfoque tem sido o seu
papel como reservatórios de carbono, e muito mais recentemente, como elementos
de adaptação, provendo bens e serviços de utilidade local. Ainda assim, as árvores
das áreas urbanas são pouco documentadas, apesar de consideráveis reservas de
carbono e provisão de bens e serviços. Uma estimativa inicial sugere que a
cidade de Maputo pode estar a armazenar cerca de 10-25 ton/ha de carbono, o
equivalente a uma savana arborizada. Por outro lado, as podas anuais das
árvores de rua geram uma biomassa lenhosa equivalente a 140,000 Kcal por árvore
(equivalente a uma botija de gás doméstico) enquanto os bairros suburbanos
provem frutos da época que podem equivaler até 100 USD por ano num agregado
familiar, contribuindo assim, para a segurança alimentar das famílias. A FAO (FAO, 2016) estima que, adicionalmente, uma árvore pode produzir serviços
ambientais com um benefício líquido estimado até 50 USD por ano (contabilizando
as poupanças de energia, redução de CO2 e de escoamento superficial das águas
das chuvas, e outros potenciais benefícios).
Árvores em eventos climáticos extremos
O que se sabe pouco,
ainda, é a função das árvores nos eventos climáticos extremos. Estudos
anteriores revelaram que em eventos de seca severa (Anyonge, Rugalema, Kayambazinthu, Sitoe, &
Barany, 2006b), as
árvores apresentam uma maior resiliência comparativamente às culturas anuais,
provendo assim, frutos, flores, raízes e cascas comestíveis que são utilizados
como substitutos ou complementos de outros alimentos que escasseiam devido à
seca. Na região de Nhamatanda, em Sofala, foram reportadas comunidades que se
alimentaram de raízes de árvores silvestres (Xikhalanyerere nome local ou Boscia albitrunca nome científico) nos
anos de seca (Anyonge, Rugalema, Kayambazinthu, Sitoe, &
Barany, 2006a). Os
benefícios potenciais das árvores em situação de perda de culturas agrícolas de
subsistência pode ser ainda maior se consideramos a extração e venda de
produtos-florestais-não-madeireiros (PFNM) como estratégia de sobrevivência das
populações afectadas. Com a venda de PFNM, as famílias podem usar esse valor
para comprar os alimentos e compensar as perdas das culturas.
Nos casos de
cheias, as árvores podem servir de suporte e abrigo para pessoas cujas casas
ficaram inundadas. O nascimento de uma menina (Rosita) em cima de uma árvore
durante as cheias de 2000 no vale do Limpopo ([2])
é um caso para dizer que as árvores desempenharam um papel importante para o
refúgio de muitas pessoas atingidas pelas cheias. No evento do Ciclone Idai no
distrito de Buzi, foram reportadas muitas pessoas resgatadas de cima das
árvores onde se haviam refugiado ([3]).
No caso de
depressões tropicais, com ventos relativamente fracos, as árvores servem de quebra-vento
e ajudam a dissipar a força dos ventos que poderiam destruir infra-estruturas
diversas. É neste contexto que muitas cidades costeiras Moçambicanas
estabeleceram plantações de casuarinas na orla marítima, com a finalidade de
fixar as dunas, mas também servirem de quebra-ventos.
Os Ciclones Idai e
Kenneth, que atingiram as cidades da Beira e Pemba respectivamente, fizeram-nos
reflectir sobre a arborização urbana. É que a força dos ventos, com velocidade
acima dos 200 km/hora, derrubou muitas árvores[4]
(totalmente desenraizadas, tronco principal quebrado ou ramos quebrados),
resultando em bloqueamento de estradas e outras vias de acesso, corte de cabos
de energia e comunicações, destruição de edifícios, abertura de buracos que romperam
condutas de água, e atingiram pessoas mortalmente ou ficaram feridas. Não há
estatísticas de quanto foi destruído por árvores durante os dois ciclones, mas
a primeira pessoa vítima mortal do ciclone Kenneth em Pemba foi atingida por um
coqueiro que caiu sobre ela ([5]).
Ainda assim, estatísticas do Reino Unido indicam que a probabilidade de uma
pessoa ser atingida mortalmente por uma árvore que cai é de um em dez milhões,
portanto, muito reduzida (FAO, 2016).
Árvores na zona urbana: amigo ou inimigo?
É sobre o potencial
destrutivo das árvores urbanas que nos levou a reflectir sobre este assunto. A
tendência, depois de sofrer os efeitos do ciclone, é pensar que as árvores são
inimigas porque destruíram a infraestrutura. Entretanto, a nossa análise,
sugere que as árvores são mais amigas que inimigas. De facto não chegam a ser
inimigas, pois o efeito destrutivo destas pode ser principalmente atribuído à
deficiente gestão destas. Foi apresentado nas secções anteriores o quão as
árvores são tão amigas do homem e da mulher urbanos. Porém, quando o amigo é
atingido fortemente por estes fenómenos da natureza, pode se tornar num factor
de destruição, aliás mesmo as nossas próprias casas, até certo ponto, tinham-se
tornado fonte de destruição com os ciclones. O facto é que as árvores em si
tornaram-se vítimas dos ciclones, e a sua morte expôs as pessoas de tantos
outros males de que as árvores protegeram durante vários anos. As árvores
isoladas, velhas, doentias, com defeitos, com ramos grandes e pesados, sistema
radicular superficial são mais susceptíveis a queda em situações de ventos
fortes. Estas foram as principais causas da queda de árvores na cidade da Beira.
Quando bem geridas as árvores urbanas podem trazer muito mais benefícios do que
prejuízos, mesmo em situações de eventos climáticos extremos como os ciclones.
Árvore desenraizada
no Aeroporto da Beira pelo Ciclonde Idai
Beira, Abril de 2019: um mês depois do Idai
Em Abril de 2019,
um mês depois do Idai, fizemos uma visita exploratória a cidade da Beira com o
objectivo de avaliar o
impacto do ciclone IDAI sobre as árvores e o impacto destas sobre as
infraestruturas na cidade da Beira. Apesar de haver sido uma visita curta,
podemos testemunhar como ás évores velhas, grandes e frondosas que tipificam a
Av. Eduardo Mondlane, no Bairro da Ponta Gêa fizeram muito estrago nas
infraestrutura, incluindo o Centro de Saúde da Cidade e a Catedral da Cidade da
Beira. Ao longo da costa, nas Palmeiras e em Macuti, as casuarinas velhas,
isoladas, e com o sistema radicular exposto pela erosão costeira foram as quai
mais ficaram afectadas. A sua queda derrubou habitações e outro tipo de
infraestruturas. Nas Avenidas 24 de Julho e Armando Tivane, onde estão
tipicamente árvores médias de Lonchocarpus sp. e Tabebuia pentaphylla, mais
juntas uma da outra, houve pouco dano: poucas árvores cairam, e por serem de
tamanho médio e longe de edifícios, não fizeram muito estrago. No bairro de
Manga-Mascarenhas árvores gigantescas de magueiras, coqueiros, entre outro tipo
de árvores dominantes naqueles bairro, foram reddubados e com eles foram
atingidas infraestruturas públicas e privadas.
Árvores de Lonchocarpus sp. na Av. 24 de Julho da Beira, que resistiram à
queda do ciclone Idai em 2019
No bairro Manga-Mascarenhas, árvores de mangueiras gigantes foram
derrubadas e com elas, edifício públicos e privados ficaram danificados.
Entretanto, uma oportunidade de colher lenha para uma cidade que ficou com
restrições de energia eléctrica, gás, e abastecimento de carvão vegetal.
Em Nhangau, as árvores de mangal não mostraram qualquer dano assinalável. A
duna em frente do mangal, numa zona mais alta, pode haver jogado um papel
determinante para a protecção das árvores de mangal.
Árvores velhas,
isoladas e enfraquecidas pela erosão na zona costeira de Palmeiras e Macuti
caíram e fizeram estragos.
Recomendações
Gestão das árvores
urbanas (podas, tratamentos fitossanitários, abate de árvores grandes e velhas);
planear e monitorar o desenvolvimento das árvores, principalmente as que estão
estabelecidas perto de infraestruturas (edifícios, estradas), e aplicar
tratamentos de poda/derruba antecipada quando estas representam perigo a vida
das pessoas e às infraestruturas. As árvores na orla marítima devem ser
consideradas como uma medida transitória em condições onde o nível do mar ainda
é estável. Ainda assim, devem ser usadas árvores resistentes ao vento e plantar
a densidades que possam efectivamente aguentar o vento. Árvores isoladas são
mais susceptíveis a serem derrubadas pelo vento que um conjunto de árvores
juntas. Nestas regiões, para além das podas regulares, as árvores devem ser
reforçadas com vegetação herbácea para apoiar a manutenção e estabilização das
dunas e minimizar os efeitos de erosão eólica e marítima. Nas regiões onde a
subida do nível das águas do mar é elevada e sinais de erosão começam a perigar
a estabilidade das árvores, deve-se repensar em formas alternativas de
protecção da orla marítima para além das árvores. Os municípios devem reforçar
as suas equipes de vereação da área do ambiente para tornar estas acções de
protecção ambiental como parte integral do desenvolvimento e planificação
urbana. Estas acções incluem medidas de identificação e eliminação de árvores
doentias, quebradas e podas de ramos em posição de perigo de queda. As árvores
dentro dos quintais devem ter uma manutenção regular, com vista a minimizar os
riscos de queda das árvores ou de ramos através da poda periódica de ramos
grandes, derruba de árvores velhas e inclinadas e substituição com outras para
uma maior estabilidade. As árvores fruteiras deve-se considerar as variedades
de maior produtividade e de copa baixa e pequena (Geneletti & Zardo, 2016). Deve-se criar parcerias com as universidades locais para fazer
estudos sobre diferentes temas relacionados com vista a reportar os benefícios
ambientais e socioeconómicos que as árvores urbanas providenciam aos cidadãos
por essa via garantir a monitorização do desenvolvimento das árvores.
Referências
Anyonge,
C. H., Rugalema, G., Kayambazinthu, D., Sitoe, A., & Barany, M. (2006a).
Bosques y salud humana. Unasylva, 57(224), 20–23.
Anyonge, C. H., Rugalema, G., Kayambazinthu, D., Sitoe, A., & Barany,
M. (2006b). Fuelwood, food and medicine: The role of forests in the
response to HIV and AIDS in rural areas of southern Africa. Unasylva, 57(224),
20–23.
Conigliaro, M., Borelli, S., & Salbitano, F.
(2014). Urban and peri-urban forestry as a valuable strategy towards African
urban sustainable development. Nature and Faune Journal, 28(2),
21–26. Retrieved from http://www.fao.org/3/a-i4141e.pdf
FAO. (2016). Guidelines on urban and peri-urban
forestry (FAO Forestry Paper No. 178). Rome.
Geneletti, D., & Zardo, L. (2016). Ecosystem-based
adaptation in cities: An analysis of European urban climate adaptation plans. Land
Use Policy, 50, 38–47.
https://doi.org/10.1016/J.LANDUSEPOL.2015.09.003
Governo de Moçambique. (2016). Estratégia
Nacional para a Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal,
Conservação de Florestas e Aumento de Reservas de Carbono Através de Florestas
(REDD+) 2016-2030. Maputo.
Lisboa, S.N., Holland, M. B. & Sitoe, A. (2019). Árvores: indicadores da sustentabilidade ambiental do campus da
Universidade Eduardo Mondlane. Working Paper. Maputo. 13p.
Reid, H., Bourne, A., Muller, H., Podvin, K., Scorgie,
S., & Orindi, V. (2018). A Framework for Assessing the Effectiveness of
Ecosystem-Based Approaches to Adaptation. Resilience,
207–216. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-811891-7.00016-5
Roderjan, C., Groenendijk,
L., Chirinda, A., Matola, A., Sitoe, A., & Moamba, C. (1986). Árvores
principais nas ruas da Cidade de Maputo. Maputo.
[4] Estima-se que mais de 300 mil árvores foram derrubadas na Cidade da
Beira. Ver: http://www.verdade.co.mz/economia/70036-cornelder-de-mocambique-apoia-beira-verde
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