quinta-feira, 26 de março de 2020

Um ano depois do Ciclone Idai: Que lições aprendemos das árvores na área urbana: um amigo ou inimigo?


O presente post teve a colaboração do Eng Sá Nogueira

O planeta terra é aquilo que é porque tem vegetação, que desempenha um papel importante nas trocas gasosas e na manutenção dos níveis de oxigénio e dióxido de carbono aceitáveis para a vida humana e de outros seres vivos. Não é tanto sobre a vegetação que este artigo pretende falar, mas uma parte dela, as árvores no ambiente urbano. Diversos estudos (FAO, 2016; Reid et al., 2018) apontam que as árvores nas zonas urbanas ajudam não apenas na ornamentação e estética, mas também no controlo do microclima (reduzindo as flutuações de temperatura, particularmente no verão), reduzindo a velocidade dos ventos, provendo habitat para biodiversidade, principalmente pássaros e insectos, e servindo de base para a produção de frutos e flores e outros serviços de utilidade pública. A rápida expansão urbana leva a problemas como diminuição da cobertura de árvores, aumento de superfícies impermeáveis, altas concentrações de dióxido de carbono atmosférico, efeito de ilha de calor urbano e vedação do solo. As pessoas que vivem em áreas urbanas e peri-urbanas, portanto, enfrentam muitos riscos potenciais à sua saúde, bem-estar e meios de subsistência (FAO, 2016).
No contexto Africano, o cenário é similar, com cidades de crescimento rápido, incapazes de produzir bens e serviços para a população, agravando assim, os níveis de pobreza urbana. É neste contexto que Conigliaro, Borelli, & Salbitano (2014) sugerem que o estabelecimento e maneio de árvores na zona urbana e periurbana podem constituir um importante contributo para o desenvolvimento sustentável das cidades Africanas. Ainda assim, aqueles autores reconhecem que ter uma cidade arborizada requer um planeamento à medida. A FAO (FAO, 2016) estima que a arborização urbana tem o potencial de criar postos de emprego decente, contribuindo dessa forma para a redução da pobreza urbana. Para além de ver o plantio e manutenção de árvores urbanas como um encargo, o mesmo estudo refere que observações feitas em várias cidades do mundo, demonstraram que para cada dólar investido na manutenção das árvores urbanas, há um retorno de 1.37-3.09 USD por ano.
Em Moçambique, a Estratégia Nacional de Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal (Governo de Moçambique, 2016) inclui entre as acções estratégicas de restauração de florestas, a planificação urbana que inclua espaços verdes em forma de parques, árvores nos arruamentos, e nos espaços domiciliários. Esta acção deve contar com a participação activa dos Municípios. O Município de Boane, na província de Maputo, por exemplo, lançou em 2017, um projecto denominado “Boane, Município Verde”, com a finalidade de plantar um milhão de árvores num período de cinco anos ([1]).
O uso de árvores em áreas urbanas não apenas tem função estética e económica, mas também ambiental. As árvores são usadas para controlar a erosão dos solos e prover sombra para os citadinos. A Barreira de Maxaquene na Cidade de Maputo, por exemplo, é uma região com elevada inclinação, e a estabilização dos solos é feita principalmente através de vegetação estabelecida como instrumento de protecção de taludes. Este serviço ambiental é considerado mais eficaz e mais económico quando comparado com obras de engenharia civil com a construção de muros e gabiões. Porém, requere medidas estritas de protecção para evitar a sua destruição. As árvores do mangal têm funções ambientais mais específicas, incluindo a filtração das impurezas dos resíduos urbanos, a protecção contra as marés de ondas gigantes e tsunamis.
A silvicultura urbana tem estado a ganhar cada vez mais interesse entre os estudiosos, incluindo botânicos, geógrafos, silvicultores, poetas e, arquitectos. O plantio de árvores nos passeios, jardins e parques e, quintais é uma prática comum em Moçambique. As cidades Moçambicanas seguem tipicamente uma estrutura colonial em que se faz a derruba da vegetação original e depois de construídas as ruas, avenidas e edifícios, plantam-se árvores ornamentais. É assim que Maputo foi conhecida no passado como a cidade das acácias, pela predominância das acácias amarelas (Cassia siamea) e acácias rubras (Delonix regia), esta última é a flor símbolo do município da cidade de Maputo. Um estudo levado a cabo em 1986 por pesquisadores da UEM e da UFPr (Roderjan et al., 1986) identificou 25 espécies de árvores e palmeiras (entre nativas e exóticas) nos principais arruamentos da Cidade de Maputo. Uma tese de licenciatura de um estudante de engenharia florestal (Américo Cantelo 1994), revelou haver mais de 100 espécies de árvores no Jardim Tunduro na baixa da Cidade de Maputo. O Departamento de Engenharia Florestal da FAEF (Lisboa et al., 2019) realizou censo arbóreo no Campus da UEM tendo reportado um total de 5478 árvores de 140 espécies pertencentes a 34 famílias.

A região periférica da cidade de Maputo, principalmente nos bairros suburbanos, difere a prática, sendo que nesta zona as árvores predominantes são plantadas nos quintais e consistem principalmente de árvores fruteiras nativas e exóticas (e.g. mangueiras, cajueiros, mafurreiras, coqueiros, etc.) utilizadas como sombra, mas também como fonte de alimento. A importância e o significado das árvores nas zonas urbanas é tal que deu origem a nomes de bairros, tal como o bairro de Xipamanine (pequena figueira) na Cidade de Maputo e muito provavelmente o bairro da Manga na Cidade da Beira.
Desde o Protocolo de Kyoto, em 1997, as árvores têm ganho cada vez mais importância no contexto das mudanças climáticas a nível global. O principal enfoque tem sido o seu papel como reservatórios de carbono, e muito mais recentemente, como elementos de adaptação, provendo bens e serviços de utilidade local. Ainda assim, as árvores das áreas urbanas são pouco documentadas, apesar de consideráveis reservas de carbono e provisão de bens e serviços. Uma estimativa inicial sugere que a cidade de Maputo pode estar a armazenar cerca de 10-25 ton/ha de carbono, o equivalente a uma savana arborizada. Por outro lado, as podas anuais das árvores de rua geram uma biomassa lenhosa equivalente a 140,000 Kcal por árvore (equivalente a uma botija de gás doméstico) enquanto os bairros suburbanos provem frutos da época que podem equivaler até 100 USD por ano num agregado familiar, contribuindo assim, para a segurança alimentar das famílias. A FAO (FAO, 2016) estima que, adicionalmente, uma árvore pode produzir serviços ambientais com um benefício líquido estimado até 50 USD por ano (contabilizando as poupanças de energia, redução de CO2 e de escoamento superficial das águas das chuvas, e outros potenciais benefícios).


Árvores em eventos climáticos extremos
O que se sabe pouco, ainda, é a função das árvores nos eventos climáticos extremos. Estudos anteriores revelaram que em eventos de seca severa (Anyonge, Rugalema, Kayambazinthu, Sitoe, & Barany, 2006b), as árvores apresentam uma maior resiliência comparativamente às culturas anuais, provendo assim, frutos, flores, raízes e cascas comestíveis que são utilizados como substitutos ou complementos de outros alimentos que escasseiam devido à seca. Na região de Nhamatanda, em Sofala, foram reportadas comunidades que se alimentaram de raízes de árvores silvestres (Xikhalanyerere nome local ou Boscia albitrunca nome científico) nos anos de seca (Anyonge, Rugalema, Kayambazinthu, Sitoe, & Barany, 2006a). Os benefícios potenciais das árvores em situação de perda de culturas agrícolas de subsistência pode ser ainda maior se consideramos a extração e venda de produtos-florestais-não-madeireiros (PFNM) como estratégia de sobrevivência das populações afectadas. Com a venda de PFNM, as famílias podem usar esse valor para comprar os alimentos e compensar as perdas das culturas.
Nos casos de cheias, as árvores podem servir de suporte e abrigo para pessoas cujas casas ficaram inundadas. O nascimento de uma menina (Rosita) em cima de uma árvore durante as cheias de 2000 no vale do Limpopo ([2]) é um caso para dizer que as árvores desempenharam um papel importante para o refúgio de muitas pessoas atingidas pelas cheias. No evento do Ciclone Idai no distrito de Buzi, foram reportadas muitas pessoas resgatadas de cima das árvores onde se haviam refugiado ([3]).
No caso de depressões tropicais, com ventos relativamente fracos, as árvores servem de quebra-vento e ajudam a dissipar a força dos ventos que poderiam destruir infra-estruturas diversas. É neste contexto que muitas cidades costeiras Moçambicanas estabeleceram plantações de casuarinas na orla marítima, com a finalidade de fixar as dunas, mas também servirem de quebra-ventos.
Os Ciclones Idai e Kenneth, que atingiram as cidades da Beira e Pemba respectivamente, fizeram-nos reflectir sobre a arborização urbana. É que a força dos ventos, com velocidade acima dos 200 km/hora, derrubou muitas árvores[4] (totalmente desenraizadas, tronco principal quebrado ou ramos quebrados), resultando em bloqueamento de estradas e outras vias de acesso, corte de cabos de energia e comunicações, destruição de edifícios, abertura de buracos que romperam condutas de água, e atingiram pessoas mortalmente ou ficaram feridas. Não há estatísticas de quanto foi destruído por árvores durante os dois ciclones, mas a primeira pessoa vítima mortal do ciclone Kenneth em Pemba foi atingida por um coqueiro que caiu sobre ela ([5]). Ainda assim, estatísticas do Reino Unido indicam que a probabilidade de uma pessoa ser atingida mortalmente por uma árvore que cai é de um em dez milhões, portanto, muito reduzida (FAO, 2016).

Árvores na zona urbana: amigo ou inimigo?
É sobre o potencial destrutivo das árvores urbanas que nos levou a reflectir sobre este assunto. A tendência, depois de sofrer os efeitos do ciclone, é pensar que as árvores são inimigas porque destruíram a infraestrutura. Entretanto, a nossa análise, sugere que as árvores são mais amigas que inimigas. De facto não chegam a ser inimigas, pois o efeito destrutivo destas pode ser principalmente atribuído à deficiente gestão destas. Foi apresentado nas secções anteriores o quão as árvores são tão amigas do homem e da mulher urbanos. Porém, quando o amigo é atingido fortemente por estes fenómenos da natureza, pode se tornar num factor de destruição, aliás mesmo as nossas próprias casas, até certo ponto, tinham-se tornado fonte de destruição com os ciclones. O facto é que as árvores em si tornaram-se vítimas dos ciclones, e a sua morte expôs as pessoas de tantos outros males de que as árvores protegeram durante vários anos. As árvores isoladas, velhas, doentias, com defeitos, com ramos grandes e pesados, sistema radicular superficial são mais susceptíveis a queda em situações de ventos fortes. Estas foram as principais causas da queda de árvores na cidade da Beira. Quando bem geridas as árvores urbanas podem trazer muito mais benefícios do que prejuízos, mesmo em situações de eventos climáticos extremos como os ciclones.


Árvore desenraizada no Aeroporto da Beira pelo Ciclonde Idai

Beira, Abril de 2019: um mês depois do Idai
Em Abril de 2019, um mês depois do Idai, fizemos uma visita exploratória a cidade da Beira com o objectivo de avaliar o impacto do ciclone IDAI sobre as árvores e o impacto destas sobre as infraestruturas na cidade da Beira. Apesar de haver sido uma visita curta, podemos testemunhar como ás évores velhas, grandes e frondosas que tipificam a Av. Eduardo Mondlane, no Bairro da Ponta Gêa fizeram muito estrago nas infraestrutura, incluindo o Centro de Saúde da Cidade e a Catedral da Cidade da Beira. Ao longo da costa, nas Palmeiras e em Macuti, as casuarinas velhas, isoladas, e com o sistema radicular exposto pela erosão costeira foram as quai mais ficaram afectadas. A sua queda derrubou habitações e outro tipo de infraestruturas. Nas Avenidas 24 de Julho e Armando Tivane, onde estão tipicamente árvores médias de Lonchocarpus sp. e Tabebuia pentaphylla, mais juntas uma da outra, houve pouco dano: poucas árvores cairam, e por serem de tamanho médio e longe de edifícios, não fizeram muito estrago. No bairro de Manga-Mascarenhas árvores gigantescas de magueiras, coqueiros, entre outro tipo de árvores dominantes naqueles bairro, foram reddubados e com eles foram atingidas infraestruturas públicas e privadas.


Árvores de Lonchocarpus sp. na Av. 24 de Julho da Beira, que resistiram à queda do ciclone Idai em 2019


No bairro Manga-Mascarenhas, árvores de mangueiras gigantes foram derrubadas e com elas, edifício públicos e privados ficaram danificados. Entretanto, uma oportunidade de colher lenha para uma cidade que ficou com restrições de energia eléctrica, gás, e abastecimento de carvão vegetal.


Em Nhangau, as árvores de mangal não mostraram qualquer dano assinalável. A duna em frente do mangal, numa zona mais alta, pode haver jogado um papel determinante para a protecção das árvores de mangal.


Árvores velhas, isoladas e enfraquecidas pela erosão na zona costeira de Palmeiras e Macuti caíram e fizeram estragos.


Recomendações
Gestão das árvores urbanas (podas, tratamentos fitossanitários, abate de árvores grandes e velhas); planear e monitorar o desenvolvimento das árvores, principalmente as que estão estabelecidas perto de infraestruturas (edifícios, estradas), e aplicar tratamentos de poda/derruba antecipada quando estas representam perigo a vida das pessoas e às infraestruturas. As árvores na orla marítima devem ser consideradas como uma medida transitória em condições onde o nível do mar ainda é estável. Ainda assim, devem ser usadas árvores resistentes ao vento e plantar a densidades que possam efectivamente aguentar o vento. Árvores isoladas são mais susceptíveis a serem derrubadas pelo vento que um conjunto de árvores juntas. Nestas regiões, para além das podas regulares, as árvores devem ser reforçadas com vegetação herbácea para apoiar a manutenção e estabilização das dunas e minimizar os efeitos de erosão eólica e marítima. Nas regiões onde a subida do nível das águas do mar é elevada e sinais de erosão começam a perigar a estabilidade das árvores, deve-se repensar em formas alternativas de protecção da orla marítima para além das árvores. Os municípios devem reforçar as suas equipes de vereação da área do ambiente para tornar estas acções de protecção ambiental como parte integral do desenvolvimento e planificação urbana. Estas acções incluem medidas de identificação e eliminação de árvores doentias, quebradas e podas de ramos em posição de perigo de queda. As árvores dentro dos quintais devem ter uma manutenção regular, com vista a minimizar os riscos de queda das árvores ou de ramos através da poda periódica de ramos grandes, derruba de árvores velhas e inclinadas e substituição com outras para uma maior estabilidade. As árvores fruteiras deve-se considerar as variedades de maior produtividade e de copa baixa e pequena (Geneletti & Zardo, 2016). Deve-se criar parcerias com as universidades locais para fazer estudos sobre diferentes temas relacionados com vista a reportar os benefícios ambientais e socioeconómicos que as árvores urbanas providenciam aos cidadãos por essa via garantir a monitorização do desenvolvimento das árvores.

Referências
Anyonge, C. H., Rugalema, G., Kayambazinthu, D., Sitoe, A., & Barany, M. (2006a). Bosques y salud humana. Unasylva, 57(224), 20–23.
Anyonge, C. H., Rugalema, G., Kayambazinthu, D., Sitoe, A., & Barany, M. (2006b). Fuelwood, food and medicine: The role of forests in the response to HIV and AIDS in rural areas of southern Africa. Unasylva, 57(224), 20–23.
Conigliaro, M., Borelli, S., & Salbitano, F. (2014). Urban and peri-urban forestry as a valuable strategy towards African urban sustainable development. Nature and Faune Journal, 28(2), 21–26. Retrieved from http://www.fao.org/3/a-i4141e.pdf
FAO. (2016). Guidelines on urban and peri-urban forestry (FAO Forestry Paper No. 178). Rome.
Geneletti, D., & Zardo, L. (2016). Ecosystem-based adaptation in cities: An analysis of European urban climate adaptation plans. Land Use Policy, 50, 38–47. https://doi.org/10.1016/J.LANDUSEPOL.2015.09.003
Governo de Moçambique. (2016). Estratégia Nacional para a Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal, Conservação de Florestas e Aumento de Reservas de Carbono Através de Florestas (REDD+) 2016-2030. Maputo.
Lisboa, S.N., Holland, M. B. & Sitoe, A. (2019). Árvores: indicadores da sustentabilidade ambiental do campus da Universidade Eduardo Mondlane. Working Paper. Maputo. 13p.
Reid, H., Bourne, A., Muller, H., Podvin, K., Scorgie, S., & Orindi, V. (2018). A Framework for Assessing the Effectiveness of Ecosystem-Based Approaches to Adaptation. Resilience, 207–216. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-811891-7.00016-5
Roderjan, C., Groenendijk, L., Chirinda, A., Matola, A., Sitoe, A., & Moamba, C. (1986). Árvores principais nas ruas da Cidade de Maputo. Maputo.