quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Contribuição da pesquisa académica ao desenvolvimento sustentável de Moçambique

Comunicação apresentada pelo Silvicultor na Gala dos 20 anos do MICOA, Painel sobre “Importância do Sector do Ambiente para o Desenvolvimento Sustentável”. Maputo, 18 de Dezembro de 2014


O desenvolvimento sustentável é caracterizado pelos três pilares: social, económico e ambiental. Tomar em conta estes pilares em simultâneo nem sempre é fácil, particularmente porque alguns são contraditórios. Por exemplo, a maximização de variáveis económicas nem sempre vai junto com a aceitação social ou o equilíbrio ambiental. Depois do mundo analisar as tendências e padrão actual de extracção e utilização dos recursos naturais, concluiu que não é sustentável e que a longo prazo nos irá levar a um desastre para a própria humanidade.
Durante a cimeira do Rio+20, os chefes de estado e nações representados assinaram uma declaração, conhecida como “O futuro que queremos”, a qual tem por objectivo delinear as directrizes de um mundo socialmente justo, ambientalmente sustentável e economicamente viável. Esta visão é partilhada por Moçambique na qualidade de país signatário de acordos ambientais multilaterais.
Moçambique é um país ainda em vias de desenvolvimento (ocupa a posição 178 no índice de desenvolvimento humano) e tem desafios ainda básicos para estabelecer um crescimento económico que possa sustentar as necessidades sociais básicas. Ao mesmo tempo, Moçambique é o 5º país mais vulnerável de acordo com o índice de vulnerabilidade às mudanças climáticas (categoria “Extremo”). A sua exposição aos ciclones e depressões tropicais numa extensa costa, a sua posição a jusante de importantes rios internacionais, tudo isso associado a uma fraca infraestrutura e pouca capacidade institucional coloca o país numa situação difícil.


São muitas as realizações do país, incluindo os esforços de assegurar que o processo de desenvolvimento seja alinhado com os princípios de desenvolvimento sustentável. A implementação dos princípios de desenvolvimento sustentável requere habilidades e capacidades, que em alguns casos são explicados por modelos não testados e que são de âmbito acadêmico.
A contribuição da academia, é assim de particular interesse na construção de uma visão, bem como no ajuste de modelos que orientam o desenvolvimento para que seja inclusivo, socialmente justo, ambientalmente são e economicamente viável. A contribuição da academia é particularmente assinalado em diversos processos desde o desenho de políticas e estratégias, de transferência de tecnologia, capacitação e formação técnica (de técnicos e gestores), monitoria de processos, entre outros.
Como sinal disso, a academia em Moçambique tem mostrado sinais de evolução nesta direcção, e nos últimos anos testemunhamos o surgimento de diversas instituições especializadas em temas relacionados com o desenvolvimento sustentável. A sua contribuição está nas diferentes vertentes, incluindo com particular destaque o desenho de políticas, estratégias, boa governação, transparência, integridade, inclusão social, democracia, entre outros.
São exemplo de instituições especializadas em questões de desenvolvimento sustentado as seguintes: para além das Universidades públicas e privadas, que desenharam cursos de especialização e instituíram centros e institutos especializados, hoje temos instituições como o Centro de Integridade Pública (CIP), o Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), o Observatório do Meio Rural (OMR), só para citar alguns.

Algumas contribuições da academia em Moçambique, podem ser dadas, incluindo as seguintes:
a)     Os estudos de biodiversidade e pobreza, que constatou que havia uma relação muito forte entre a biodiversidade e a pobreza, e que a biodiversidade tinha um papel muito importante para a redução da pobreza, tanto urbana assim como rural. Um exemplo disso é o papel da lenha e o carvão vegetal na energia doméstica, numa situação em que por um lado as fontes alternativas de energia ainda são limitadas, mas também a produção e venda de lenha e carvão representa fonte de renda para muitas famílias rurais. O estudo revelou que apesar da contribuição social e económica ser positiva, esta prática resulta num desequilíbrio ambiental. O estudo orientou de certo modo as políticas de energia e de florestas para que sejam mais proactivos em encontrar soluções em que seja possível utilizar os recursos de biodiversidade para a economia, mas ao mesmo tempo reduzir as taxas de desmatamento e degradação do ambiente.
b)    Os estudos sobre a vulnerabilidade sobre as mudanças climáticas e o risco de desastres, incluindo a estratégia de adaptação, o custo de adaptação, que constatou que o crescimento económico de Moçambique é tão vulnerável dado o seu nível de exposição aos extremos climáticos, e que o custo a longo prazo, seria mais alto caso não se tomem em consideração medidas de adaptação. A redução da Produto Interno Bruto em 2000, quando tivemos as cheias históricas, foi uma demonstração desse facto. A vulnerabilidade climática afecta não só os ecossistemas e a população, mas também é uma variável importante no ambiente de negócios. Resultados do estudo ajudaram o país a alinhar melhor as suas políticas do sector de águas, agricultura, infraestruturas, e ajudaram a orientar a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDe) para tomar em consideração o aspecto da resiliência climática nas intervenções que são feitas.
c)     Os estudos sobre a transparência na indústria extractiva e a contribuição dos mega-projectos, que constataram que a contribuição deste sector era baixa e a sua natureza de capital intensivo, não criava postos de emprego na mesma medida para os Moçambicanos. Estas constatações são as que levaram a ajustar as políticas do sector para procurarem ser mais inclusivas, particularmente o ajuste da necessidade de promover a inclusão de pequenas e médias empresas nacionais na prestação de serviços para os mega-projectos como forma de aumentar a inclusão social.
d)    Os estudos sobre gestão costeira, que revelaram os problemas da zona costeira e os riscos associados, com particular destaque a erosão costeira. Estes estudos orientaram em grande medida acções tais como a melhoria do sistema de drenagem de águas pluviais e a estabilização da linha costeira de Maputo.
e)     O atlas de energias renováveis de Moçambique, resultou de um estudo conduzido pela academia para apoiar a operacionalização de estratégia de energia em Moçambique. A diversificação da matriz energética é um dos requisitos importantes para a segurança e soberania energética. O atlas dá as referências técnicas da qualidade, distribuição geográfica, viabilidade técnica e económica de diferentes formas de energias renováveis
f)      Em 2013 o Governo de Moçambique aprovou o Plano de Acção para a Economia Verde, um documento inspirado em “O futuro que queremos”, referido anteriormente, e orientado para uma maior eficiência de utilização de recursos naturais, maior inclusão social, e responsabilidade ambiental. O documento apresenta opções de políticas que estão sendo presentemente avaliadas pela academia antes da sua implementação, entre as quais, os mecanismos de facilitação para uma maior participação do sector privado.
Os exemplos do plano de acção para economia verde e o atlas de energias renováveis, claramente abrem oportunidades para o sector privado orientar os seus investimentos, particularmente o enfoque sobre as pequenas e médias empresas.
Para terminar, queria referir que os exemplos apresentados aqui são uma amostra pequena da contribuição da academia no desenvolvimento sustentado em Moçambique.
A produção científica e tecnológica da academia em Moçambique e seus parceiros é grande e precisa ser valorizada cada vez mais.
Os mecanismos de interacção entre os académicos e fazedores de políticas ainda são deficientes, mas os exemplos apresentados mostram claramente que esta interacção existe e tende a aumentar.
A orientação global para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como nova estratégia para alcançar metas de desenvolvimento requere que a ligação entre os diferentes actores, no governo, no sector privado, na sociedade civil, e na academia seja mais forte e com enfoque local.

Documentos de referência

Castel-Branco N. 2008. Os mega-projectos em Moçambique: que contributo para a economia nacional? Documentos online: http://www.iese.ac.mz/lib/noticias/Mega_Projectos_ForumITIE.pdf
FAO. 2007. Florestas e fauna bravia na segurança alimentar, nutrição e alívio à pobreza. Policy briefing (FAO-Moçambique).
FUNAE. 2012. Projecto Atlas de Energia Renováveis de Moçambique. Documentos em linha: https://energypedia.info/images/2/28/PT-Projecto_do_Atlas_de_Energias_Renov%C3%A1veis_de_Mo%C3%A7ambique-Fundo_de_Energia.pdf
Hoguane AM. 2007. Perfil diagnóstico da zona costeira de Moçambique. Revista de Gestão Costeira Integrada 7(1):68-82.
INGC. 2009. Impacto da Mudanças Climáticas em Moçambique e as possíveis Medidas de Adaptação. Documentos online: http://ingc.dirisa.org/repository/phase-2-theme-reports
MICOA. 2007. Biodiversidade e pobreza em Moçambique: alívio à pobreza protegendo a biodiversidade.
MICOA. 2012. Estratégia de Adaptação e Mitigação às Mudanças Climáticas em Moçambique.
MICOA. 2013. Plano de Acção para a Economia Verde em Moçambique.
Nombora D. 2014. Iniciativa de transparência na indústria extractiva: Moçambique avança rumo ao status de cumpridor.
UNCSD. 2012. O Futuro que Queremos: declaração final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Rio de Janeiro, Brasil. 55p.

UNDG. 2014. Delivering the post-2015 development agenda: opportunities at the national and local levels. UN Secretariat, NY. (44 p.)