domingo, 7 de fevereiro de 2016

Governo introduz medidas para o controlo da exploração das madeiras

Em 2004 John Barne escreveu o primeiro relatório que denunciava a exploração ilegal de madeiras em Moçambique, mas foi em 2006 quando o relatório Chinese Takeaway despertou muita atenção sobre a situação da exploração ilegal de madeiras em Moçambique. Desde lá até hoje, vários testemunhos apareceram dando provas dos desmandos que estavam a acontecer no sector de florestas. De facto a situação foi se agravando com o tempo. O Silvicultor publicou vários posts sobre o assunto, incluindo estudos feitos por investigadores nacionais e estrangeiros, reportagens de jornais nacionais, depoimentos de pessoas ligadas ao sector de florestas, entre outros.
Apesar do governo nessa altura haver tomado medidas tais como reclassificação de espécies, estabelecimento de taxas de sobrevalorização, banimento parcial de exportação de toros, entre outras medidas, pouco efeito resultou. Os últimos relatórios (de 2014, 2015) indicavam perdas de receitas na ordem dos 12 a 15 milhões de dólares (quase metade da receita esperada) e indicavam também que o nível actual de exploração (>700 mil m3) já havia passado a capacidade de corte anual (estimada em 500-600 mil m3). Estas duas constatações são importantes indicadores de perdas económicas e ambientais.
Mais ainda, apesar do regulamento de florestas haver estabelecido o regime de concessões florestais como forma superior de gestão sustentada de florestas naturais, a exploração em regime de licença simples foi a que mais se notabilizou e acelerou a exportação de madeira em toros em vez do processamento local de madeiras.
A perda de receita, a fraca fiscalização e a pressão da exploração ilegal propiciaram condições para estatísticas pouco fiáveis da exploração e exportação de madeiras. Com efeito, pelas estatísticas oficiais, o corte de madeiras está muito abaixo da capacidade de corte anual, sendo que, com base nas estatísticas oficiais, não se justificava a tomada de medidas mais severas.
O reconhecimento destas situações (perda de receita, estatísticas pouco fiáveis, exploração acima do capacidade de corte anual) constituíram uma base importante para que as medidas ora tomadas fossem de facto introduzidas. Adicionado a este reconhecimento, o sector de florestas tem estado a testemunhar uma evolução rápida a seguir as tendências globais sobre (i) economia verde ou de baixo carbono, (ii) redução de emissões do desmatamento e degradação florestal, e (iii) valorização de florestas em pé.
Assim, as medidas ora tomadas têm em vista enfrentar esta situação e assegurar que as florestas possam contribuir para o desenvolvimento rural através de geração de empregos e provimento de bens e serviços de utilidade pública, ao mesmo tempo que contribui para a economia nacional, tendo em vista os limites e capacidades de reprodução das florestas. O resumo sobre as medidas tomadas, classificadas em imediatas e de médio-longo prazo, encontra-se a seguir, e mais detalhes podem ser encontrados no texto oficial anunciando as medidas.

      Medidas imediatas
  •  Monitoria e avaliação dos operadores – com vista a verificar e avaliar a situação actual das operações florestais nas florestas naturais. Com esta medida pode se obter informação mais fiável e segura sobre o estado das explorações florestais. A inclusão da sociedade civil e da academia neste processo poderá dar um maior dinamismo e imparcialidade na avaliação.
  • Veda do corte da madeira de pau-ferro (Swartzia madagascariensis) – depois de se observar que madeiras desta espécie já se encontram esgotadas, estando-se a cortar árvores de tamanho abaixo do diâmetro mínimo recomendado. A medida visa dar tempo de regeneração e permitir a avaliação do estado de conservação da espécie.
  • Suspensão de emissão de novas licenças e concessões florestais – para dar tempo para reorganizar o sector, incluindo o estabelecimento de um sistema de informação florestal que possa servir de base para apoiar a tomada de decisões sobre a gestão das florestas.
  • Suspensão da exportação de madeira em toros – esta medida vem a agravar as medidas de banimento parcial de exportação de madeira em toros de espécies de primeira classe. Esta medida tem em vista promover o processamento local de madeiras, adição de valor agregado e geração de empregos rurais.


Medidas a médio-longo prazo
  • Uma nova política e estratégia de florestas – com vista a acomodar os assuntos emergentes no sector e reorientar para a conservação. A política actual está mais orientada para a exploração de madeiras muito mais do que valorizar as florestas em pé, assim, uma nova política poderá enfatizar a conservação e a valorização de outros bens e serviços florestais para além da madeira.
  • Uma nova lei e regulamento de florestas – com vista a operacionalizar a nova política e a estratégia de florestas. Estes instrumentos têm em vista reduzir o extractivismo e encontrar formas de valorizar as florestas em pé, ao mesmo tempo que dá maior intervenção às pessoas que vivem dentro ou perto das florestas, segundo os princípios de maneio florestal sustentável.
  • Projecto Floresta em pé – esta medida tem em vista valorizar as florestas em pé, ao mesmo tempo que se estabelece um mecanismo para que as florestas contribuam cada vez mais para a sociedade através de produção de mobiliário para escolas e hospitais bem como o plantio de árvores e restauração de áreas degradadas, produção sustentada de carvão vegetal, entre outros.


Para concluir:

Para o sector efectivamente fazer valer estas medidas, precisa trabalhar arduamente para que no fim de dois anos o sector esteja em outros patamares. A suspensão de emissão de licenças e concessões florestais por dois anos deve ser seguida de medidas de estabelecimento de um sistema operacional de informação florestal para dar estatísticas claras e transparentes em tempo real; precisa que se criem oportunidade para capacitação de operadores modelo, que possam servir de ponto de partida para a divulgação de boas práticas florestais; e um sistema de fiscalização eficiente e capaz de apoiar o reforço da implementação das normas vigentes.
O banimento da exportação de madeira em toros pode afectar muitos operadores florestais. Entretanto, nos últimos tempos o mercado Chinês reduziu a importação de madeiras de Moçambique, sendo que esta medida poderá agravar ainda mais a situação dos operadores que dependem exclusivamente deste mercado. Por outro lado, há muita madeira que já foi cortada e encontra-se nos parques de toros e espera exportação, que deve agora ser processada antes de deteriorar.
Para minimizar os impactos, uma série de medidas deverão ser tomadas com vista a enquadrar os que ficam afectados, mas que têm vontade de continuar no sector de florestas. Uma das medidas importantes é o investimento em equipamento e infraestrutura que permita o processamento local. Entretanto, não basta colocar máquinas de serração e processamento secundário, vai ser preciso formar e capacitar operadores dessas máquinas, técnicos de manutenção, bem como na identificação e desenho de produtos florestais que possam ser colocados tanto no mercado nacional assim como internacional.
O projecto floresta em pé parece ser um desses que procura tapar essa lacuna, e por isso deve ser tomado a sério e com efeitos imediatos. O não enquadramento dos operadores ou a falta de orientação sobre as boas práticas poderá frustrar as razões desta iniciativa de valorizar cada vez mais as florestas naturais.
Em 2011 foram tomadas medidas, que na altura pareciam ter muito potencial de produzir resultados. O Silvicultor criou muita expectativa sobre as medidas, mas não parece haver acontecido nada do esperado. Podemos evitar que isso volte a acontecer se forem tomadas de facto, medidas de acompanhamento das decisões tomadas.