António Patrício é um personagem desconhecido para a maioria dos Moçambicanos. Um funcionário público como muitos, trabalhador árduo, que pela sua profissão passava noites em vela cuidando bens públicos. António era Fiscal Florestal a trabalhar na província de Nampula, uma das regiões mais ricas em madeiras tropicais em Moçambique. Operadores florestais desonestos e ilegais, abundam na pilhagem de madeiras em Nampula e nas adjacentes províncias de Zambézia e Cabo Delgado. António Patrício foi vítima destes operadores e tal como outros quatro fiscais foram deliberadamente atropelados por camiões madeireiros. António Patrício teve uma morte trágica ao ser esmagado por um camião que transportava toros ilegalmente. Não são só os fiscais que são vítimas, mas os agentes dos Serviços Provinciais de Florestas recebem chamadas telefónicas ameaçadoras.
Este cenário, reportado pelo Jornal Domingo de 19 de Junho de 2011, repete-se um pouco por todas as três províncias, ante a incapacidade do Ministério de Agricultura. Os funcionários dos Serviços Florestais sempre referem a chamadas ou sms anónimos ameaçando de morte ou a expulsão do posto de trabalho. Nos portos de Nacala, Quelimane e Maputo já foram encontradas centenas de contentores com madeira ilegal “sem dono”. É que o dono é o anónimo que faz as chamadas e profere ameaças aos representantes das instituições do Estado que têm por função, zelar por aqueles recursos.
No Jornal Domingo de 26 de Junho, o Director Nacional de Terras e Florestas, Dinis Lissave, prometeu guerra sem quartel aos prevaricadores. A avaliar pelos acontecimentos das últimas 4 semanas, tudo leva a crer que a guerra começou. A imprensa tem vindo a reportar casos de mais de 500 contentores contendo madeira ilegal que estava prestes a partir para a China. O Jornal Savana de 22 de Julho de 2011 tirou do anonimato os donos das madeiras apreendidas ao publicar os nomes de empresas tendo citado Casa Bonita Internacional de dois cidadãos chineses, Xu Xiqi e Xu Xizhi e Chanat (Green Timber), também de dois cidadãos chineses, Ken James Tsou e Tina Angela Tsou. Mais ainda, o jornal refere que as empresas são apenas pontas de lança de dois generais moçambicanos muito influentes na Zambézia. A grande entrevista da TVM as 22:00 de 03 de Agosto, o entrevistado era um dos generais referidos pelo jornal, tendo durante a entrevista, confirmado ser dono de uma empresa madeireira na Zambézia, ao que se lhe perguntou qual era o seu sentimento ante o olhar sereno sobre a pilhagem de madeira naquela província. A resposta foi que o governo provincial tem que fazer cumprir as leis em vigor. O Telejornal das 20:00 da STV de 04 de Agosto apresentou uma reportagem sobre como eram arrumados os troncos dentro dos contentores para driblar o sistema de controle. O Jornal Savana de 05 de Agosto refere que a exploração ilegal de madeiras tem mais irregularidades por explicar, incluindo o atraso da implementação do decreto 21/2011 de 01 de Junho sobre a Taxa de sobre-valorização de madeira (ver artigo sobre este assunto).
É uma verdadeira guerra! Tudo leva a crer que ainda vai correr muita tinta. O Silvicultor está atento aos desenvolvimentos. A implementação dos princípios de Maneio Florestal Sustentado (MSF) às vezes implica estas guerras.Páginas relacionadas:
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